sábado, 13 de outubro de 2007

"Estou com saudades do Dudu"

De quando em vez há momentos luminosos, daqueles em que as conversas espelham as estrelas e nossos pensamentos se concatenam com a clareza dos astros. Gosto desses momentos, momentos nos quais, entendo, uma ou duas falações nossas resumem grandes 'processos' angustiosos.


13/10/2007, 1h, terminal rodoviário da Praça XV

- Como é saudade em inglês?
- Creio que não existe. De qualquer forma eu não sei.
- Sinto saudades do Dudu.
- Está chorando?
(Com a cabeça faz sinal que sim)
- Sara, não chore.
- Eu acho que devo dizer para não chorar, mas, em verdade, sinto que, se tem vontade de chorar, deve chorar mesmo.* Se precisar de ombro, estou aqui.
(Faço cafuné nela que, segundo após, calmamente vira-se para mim, olha ao longe, voz embargada)
- Estamos em outubro, daqui a pouco será novembro e fará um ano que ele terminou comigo. Mesmo assim, mesmo que um ano se tenha passado, cá estou eu a chorar!
- Sara, preste atenção. Eu acho que dessas poucas ocasiões que, até 'confirmadas' pela distância, percebemos que 'amamos', nos lembraremos daqui a um, dois, três, vinte anos. E creio, sinceramente, que deva ser assim. Afinal, nos entregamos e, mesmo que tenha sido de mão única, que não tenhamos sido correspondidos - muita vez dolorosíssimo por isto mesmo - fica o sentimento que fomos capazes de nos dar, atingimos o nosso ápice de entrega a alguém para aquele momento de nossas vidas. Isso independe, mesmo, da resposta alheia, do que tenha sido para o outro. É, de si para consigo, você ali; entende? É algo seu, é a sua vida ou parte dela, foi a sua aposta. Acho que, ao menos, por nós mesmos, devemos exultar com a constatação do que fomos capazes.**
- Angustiado no mesmo ponto, certa vez perguntei a Camila como faz para lidar com essas situações, para quando a saudade bate forte. Ela me respondeu que, por exemplo, com o pessoal de Santos, percebeu que não era exatamente a saudade das pessoas enquanto corpo físico, mas, muito mais, saudade das boas emoções e momentos que teve ao lado delas. Emoções e momentos que, segundo a própria, não voltam; sendo vão, leviano e, por fim, frustrante e doloroso querer buscá-las para, no fundo, revivê-las: não faz sentido, compreende?
Contou-me que por algumas vezes tentou telefonar para algumas das várias pessoas quais a vida e as decisões afastam, e não obteve, em todas as tentativas, a resposta que desejava, sequer a 'adequada'. O caminho que existe, então e somente, apontou-me, é guardá-las dentro de si, mantê-las na lembrança e, de algum modo, contentar-se. Digo agora: não o 'contentar-se' observado pelo prisma do 'perdedor', por aquilo que se perdeu, "o que poderia ter sido e não foi"; mas pelo prisma daquele que é, sobretudo, sincero consigo, aquele que sabe pôr as coisas em seus devidos lugares: o 'contentar-se' pelo que se teve e o quão agradável foi possível ser àquela ocasião.
Mas, sabe?, fica-me a questão: o quanto de nossos relacionamentos, com quem quer que seja, não são fantasias? Não são algo que criamos, que ressignificamos a nosso bel-prazer e o tornamos para nós atraente, a ponto de viver, ainda e - constatemos - sobretudo, de modo individual?
Observo que, ainda assim seja, a 'fantasia' (ainda que individual) não deve, de modo algum, ser oposta à 'realidade', como talvez se queira opor o colorido ao branco e preto. Não devemos observá-la como algo antagônico, mas, sim, como algo complementar e, quem sabe, até constitutivo. Para o caso de ruir (o que acontece na maior parte das vezes), julgo ser a coisa mais digna (talvez a única) nos presentearmos: que fiquem guardadas em uma bela caixa de presente, na melhor vitrine que existe dentro de nós, para nós mesmos.



* Ouié. Sou partidário de que devemos ser fiéis a nós mesmos. Que aí estejam inclusos nossos sentimentos. Por exemplo: deu vontade de chorar e está em ocasião propícia para? Chore. Se for o caso de precisar de coragem, um argumento: não minta para si mesmo, já basta o tanto que se é forçado perante os outros.

** Acho bonitim por se tentar atravessar a barreira do 'egoísmo': aquela coisa (perdão pela vulgaridade) do só pensar em si, das vantagens advindas de em contraposição aos prejuízos inerentes em visão comercial.
Ao menos tenta-se pôr em 'posição 0' (não se esperar coisa alguma previamente), pronta para diálogo aberto e construção conjunta; pensa-se e age-se com respeito à outra parte.



Musiquinhas bem legais:
By Fernandeenha (sempre que pode toca na flauta): Cartola - O mundo é um moinho.
Indicada e enviada por Rodrigo Mariano: Cartola - Preciso me encontrar.

6 comentários:

Anônimo disse...

Bom, então pelo visto terei que passar por aqui mais vezes =]
Gostei do novo texto, embora deva admitir que para muitas pessoas, inclusice para mim é dificil pensar dessa forma ("... que fomos capazes de nos dar...tenha sido para o outro.")

Daniel disse...

Passe e não faça cerimônia. ;)

Quanto ao "(..)que fomos capazes de nos dar (...)tenha sido para o outro.", vem dessa constatação/frase: "terminou. Que fazer com todo esse sentimento agora?"
Sei que é difícil. Para mim e para Sara, creio, também o é. A situação é algo mais ou menos assim: você gosta muito, apesar de tudo ainda gosta muito, mas sabe que não haverá resposta da outra parte à altura ou do modo como quer.
Assim sendo, por que insistir nessa busca pela resposta do outro, por 'formatá-lo' ao seu desejo? Deixe-o livre e deixe-se livre do sentimento de 'posse' ou de quaisquer outros que lhe liguem a.
E, neste caminho, para não doer tanto, faça algo com o que sente e não tem correspondência: fique feliz porque, independente do que tenha feito e/ou pensado a outra parte, você foi capaz de se entregar.
Mesmo que não tenha havido resposta, o legal é ter sido uma entrega de si, compreende? É salutar, penso, em um mundo como o nosso, cada vez mais 'egocêntrico' etc. etc. etc. blábláblá
Isso é bom - deve ser de algum modo, quero crer - para o crescimento... interior? :S
Enfim. Vamos adiante.

Raven disse...

acho que quando vc ama de verdade, vc quer ver a pessoa feliz apesar de tudo. apesar de com quem ela esteja.

eu sou assim.

não era, mas agora sou. consegui ver que nunca tinha amado alguém de verdade antes porque sempre punha meu egoísmo em primeiro lugar e amor não é egoísmo. muito pelo contrário.

posso dizer agora: eu amo. amo mesmo. amo absurdamente. amo de forma pura e clara. amo e não tenho vergonha deste sentimento e de qualquer um que saiba e me olhe de forma equivocada. eu não ligo. como ouvi em um filme, meu amor é só meu e ninguém me pode tirar. e isso já me deixa sentir melhor quando fico mal.

saudades são constantes.
tem momentos que vc precisa loucamente que a pessoa esteja perto de vc, mas que não dah...
mas ficam os bons momentos, as boas lembranças e talvez a sensação de que a pessoa também te ame. mesmo que não do jeito que vc gostaria.



(adorei o seu texto, as usual.. ;))

=****

Unknown disse...

Daniel,
Obrigado pelo toque pro "marinheiro de primeira viagem" aqui. E engraçado que pensei num desfecho (se se pode colocar assim) para esse trecho que está sendo analisado por você e Vivian...Assunto pra depois, talvez o termine lá no meu blog.
Sentimento acho que é o mote da vez. Podemos gerenciá-lo de uma maneira super positiva, o que acha?
;)
Insônia, resolvi escrever.

Norid disse...

"Sou partidário de que devemos ser fiéis a nós mesmos. Que aí estejam inclusos nossos sentimentos. Por exemplo: deu vontade de chorar e está em ocasião propícia para? Chore. Se for o caso de precisar de coragem, um argumento: não minta para si mesmo, já basta o tanto que se é forçado perante os outros."
Concordo!!
Também penso que não devemos nos envergonhar de nossos sentimentos, de nossas vontades e de tudo aquilo que nos move, que nos impulsiona... Obviamente que tudo na vida requer cautela!

Saudade é algo que pesa, esmaga mesmo sendo algo que não vemos, não tocamos e apenas sentimos. Mas também pode ser um sorriso, principalmente quando vem com belas recordações. Tudo depende do momento ou dos momentos vivenciados. Não posso afirmar que saudade me visita ao lado de lágrimas ou sorrisos,apenas vem e me faz companhia...silenciosa companhia!

Faz tempo que não 'passo' aqui, mas valeu apena esperar ^^
Beijo!

Unknown disse...

Daniel, as vezes vc me surpreende. Lembro de vc ter feito essa pergunta mas Jesus, jamais imaginei q isso pudesse ficar tão marcado na sua cabecinha, criança. Tô bege rs.
Fiquei feliz com o q vc escreveu. Pelo visto serviu pra alguma coisa. Virou assunto de blog rs. Concordei com sua posição. E as vezes acho sim q devemos o colorir o preto e branco, mesmo sendo só pra massagear nosso ego. Beijos, darling!